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Conselhos às Mães Cristãs sobre a Piedade Doméstica — Archibald Alexander (1772-1851)

Quando me dirijo às mães cristãs, não quero insinuar que as mães não cristãs não precisem de admoestação. Que pena! Que em um país cristão existam mães que não têm nada do espírito de Cristo! Os jovens muitas vezes prometem a si mesmos que se dedicarão à verdadeira religião depois de casados e estabelecidos no mundo. Quão absurdo é isso! Deveria antes ser a sua resolução não pensar em entrar num estado que envolve tão pesadas responsabilidades e o exercício de tantas virtudes — até que se tornem possuidores da verdadeira religião! Sem a piedade vital, como é possível para qualquer mulher cumprir retamente os deveres de esposa e, especialmente, de mãe? Sinto que nenhuma mulher destituída de religião está apta a se tornar esposa e mãe. Pensem nisso — uma mãe ímpia! Se não fosse tão comum, a própria expressão excitaria emoções semelhantes às que experimentamos quando ouvimos falar de um ministro ímpio.

Dirijo-me às mães cristãs, porque somente delas posso esperar um ouvido paciente. Dirijo-me às mães cristãs, porque todas as mães deveriam ser cristãs sinceras. Existe na terra alguma pessoa cuja mente seja tão pervertida pelo preconceito a ponto de não perceber a congruência entre a piedade e esta terna relação? Antigamente, era uma opinião corrente, mesmo entre os infiéis, que a religião era um ornamento e uma salvaguarda para a mulher. Conheci um homem ilustre que, embora tivesse renunciado ele próprio a toda crença na religião cristã, encorajava-a em sua esposa e fornecia-lhe todos os meios necessários para frequentar a igreja; e quando um de seus amigos se queixou a ele de que sua esposa estava se tornando piedosa, o que lhe causava grande preocupação, ele lhe disse que era um tolo, pois nada era mais adequado e desejável do que uma esposa ser piedosa. Até os infiéis são constrangidos, como os demônios de antigamente, a dar seu testemunho a favor de Cristo. Muitos homens ímpios desejam obter esposas de piedade genuína, e poucos homens inteligentes em nosso país ficariam satisfeitos com uma mulher infiel. Tal figura era tão rara na Virgínia quarenta anos atrás, quando a infidelidade abundava entre as classes mais altas de homens, que quando uma certa senhora foi apontada como defensora de opiniões deístas, isso criou uma repulsa de sentimento em quase todas as mentes.

[O Poder do Exemplo Materno]

Aqui tenho o prazer de dizer que em nenhuma classe da sociedade, em lugar algum, encontrei exemplos de piedade mais pura e elevada do que entre as senhoras da Virgínia. E tenho motivos para acreditar que esses exemplos aumentaram em vez de diminuir desde que deixei meu Estado natal. Pode-se, num sentido importante, dizer que a Comunidade foi preservada da destruição total pela prudência, pureza e piedade das mães virginianas. Elas têm sido o sal que deteve o progresso da corrupção moral na massa da sociedade. Por conseguinte, talvez não haja nenhum país no mundo onde as mães sejam tão respeitadas pelos seus filhos, e tenham uma influência tão grande sobre eles. Pergunte a quase qualquer jovem virginiano onde ele procurará os exemplos mais brilhantes de excelência moral, e seus pensamentos se voltarão imediatamente para o caráter das mulheres piedosas e, talvez, para sua própria mãe, se por acaso ela for piedosa.

Recordo-me de um jovem cavalheiro que, embora tivesse uma mãe extraordinariamente piedosa, rompeu com todas as restrições de sua educação e tornou-se um infiel professo e um defensor da licenciosidade em suas formas mais vis; mas um Deus clemente ouviu as orações incessantes de sua mãe e, por meios um tanto incomuns, ele foi convertido do erro de seus caminhos. Ao falar de sua carreira anterior — o que evidentemente fazia com vergonha e humildade —, ele disse: “Eu conseguia superar todos os argumentos em defesa da religião, exceto um, e esse eu nunca consegui eliminar, que era o exemplo piedoso e a vida de minha mãe. Quando me havia fortificado contra a verdade com a ajuda de Bolingbroke, Hume e Voltaire, ainda assim, sempre que pensava em minha mãe, eu tinha a convicção secreta — que nada poderia remover — de que havia uma realidade na piedade vital.”

[A Esfera de Ação e a Influência Silenciosa]

Eu poderia rapidamente preencher meu papel com preceitos salutares para as mães; mas não é exatamente disso que se necessita. O conhecimento quanto ao dever materno é amplamente difundido. A teoria da educação, conforme recai sob a direção das mães, é talvez suficientemente compreendida pela maioria. O que almejo é despertar o vosso ânimo sincero por meio de lembranças (2 Pedro 3:1), ou, em outras palavras, estimulá-las à consideração da importância da posição que ocupam e persuadi-las a exercer a influência que possuem. Muitas vezes ouvi mulheres piedosas reclamarem que tinham pouco ou nada em seu poder, e sentiam-se como se fossem membros quase inúteis da sociedade. Este é um erro de cálculo flagrante. Sua influência é silenciosa e se espalha imperceptivelmente — mas é real e eficaz.

A piedade é como a luz que não pode ser escondida. Quanto mais ela busca ocultar-se e se retira da atenção pública, mais brilhantemente ela resplandece. A influência feminina apenas cessa, ou opera desfavoravelmente, quando as mulheres se afastam da sua própria esfera apropriada; ou quando tentam intrometer-se na atenção e admiração do público. Assim como ficamos chocados com a infidelidade em uma mulher, a ambição feminina é odiosa. Que a mãe devotada se esforce em sua própria esfera apropriada, que é no retiro do círculo doméstico, e na frequência constante e devota ao culto de Deus. Que ela cuide bem dos assuntos de sua casa. Que ela manifeste sua graciosidade e tolerância no governo constante de seus filhos. Que ela dê o exemplo de ordem, asseio, diligência e hospitalidade, e terá o suficiente o que fazer. Cada hora, e quase cada minuto, fornecerá oportunidade para o exercício de alguma virtude; e aquele Olho que vai a todo lugar graciosamente notará, e também trará à luz, aqueles atos que são realizados de forma alegre e conscienciosa. Uma mãe não pode ser colocada em um campo de trabalho mais interessante do que no meio de um grande círculo de filhos. Aqui está a sua esfera de ação apropriada. Aqui ela tem trabalho suficiente para ocupar seu coração e suas mãos.

[Grandes Realizações vs. O Cuidado Cotidiano]

Mas alguns estarão prontos a pensar que este é um campo estreito no qual trabalhar. Eles desejam agir em uma escala maior e fazer algo que impactará os destinos dos homens — algo mais intimamente conectado com a conversão do mundo. Algumas poucas mulheres, por possuírem talentos peculiares e por serem colocadas em circunstâncias singulares, foram capazes de realizar tanto, que o mundo se encheu de sua fama. Tal foi o percurso brilhante da Sra. Hannah More, que por seus esforços benevolentes e por seus escritos, tornou-se a benfeitora da raça humana. E tal é agora a órbita luminosa na qual a Sra. Fry se move1. Mas cabe a muito poucos de ambos os sexos fazer o bem em uma escala que pode ser chamada de nacional. E se todos visassem a tais realizações, muito pouco seria feito. A parte muito maior do gênero feminino deve contentar-se em cultivar o pequeno jardim que a providência lhes confiou.

Mas assim como as mães na antiga Israel ansiavam por dar à luz filhos, na esperança de que pudessem desfrutar da honra e do indizível prazer de conceber o Messias prometido, assim também as mães agora podem nutrir a grata esperança de que, dos primeiros frutos de seus ventres, Deus suscitará homens de renome, ministros eminentes, missionários dedicados, filantropos ilustres, estadistas sábios ou mesmo homens de piedade humilde e exemplar na vida retirada. Ana esperou em Deus pelo seu Samuel; e, sem dúvida, antes de a criança nascer, ela o consagrou a Deus, de quem o recebera; e quando ela o abraçava em seus braços e o amamentava em seu seio, ela continuamente elevava petições pela bênção de Deus sobre a Sua própria e preciosa dádiva. E oh! como ela foi ricamente recompensada!

Li ou ouvi que alguém perguntou a uma mulher extraordinariamente devota como havia acontecido que todos os seus filhos se tornaram piedosos em uma idade tão precoce. A boa mulher modestamente negou qualquer mérito ou ação no caso — mas disse ela: “Tantos filhos quantos eu amamentei, nunca levei um deles ao meu seio para lhe dar a nutrição necessária — sem que ao mesmo tempo eu levantasse o meu coração em oração a Deus pedindo a Sua bênção sobre o querido bebezinho.” Não seria esta uma boa regra para as mães observarem universalmente? Quem pode dizer qual seria o efeito sobre a próxima geração?

[O Alicerce da Igreja e da Sociedade]

A pergunta é frequentemente feita: Por quem se levantará Jacó? (Amós 7:2,5). Um responde uma coisa, e outro, outra; mas se me for permitido dar uma resposta parcial, embora eu acredite ser verdadeira, eu diria: por mães piedosas. Sim, assim como uma mulher teve a indizível bênção de ser a mãe de nosso Senhor e Salvador, a mulher, coletivamente, será a mãe da igreja. Dez mil Timóteos no colo, e com palavras doces e persuasivas, incutindo em suas mentes que se abrem as palavras daquelas Sagradas Escrituras, que podem torná-los sábios para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. (2 Timóteo 3:15).

Uma reforma genuína e completa deve começar na família — que é a base de todas as instituições sociais, civis e religiosas. Aqui está a raiz de onde brota a árvore inteira com todos os seus galhos extensos e altaneiros. E se a verdadeira religião, para ser geral, deve começar no círculo doméstico, a quem pertencerá a agência principal e a honra mais distinta? Sem dúvida, às mães piedosas. Delas devem ser as mãos que plantam a semente preciosa; delas as orações e lágrimas que regam a planta que cresce; delas as instruções bondosas, oportunas e bem adaptadas que se destilam na mente tenra e suscetível como a chuva suave sobre a relva tenra ou o orvalho mais imperceptível sobre a planta sedenta. Não são as palestras mais importantes aquelas que são entregues com pompa solene nas escolas e nos púlpitos — mas sim aquelas que fluem docemente dos lábios afetuosos das mães para o seu grupo dócil e interessado de pequeninos, reunidos em volta de seus joelhos. Nenhuma eloquência se iguala à de uma mãe sensata e piedosa, porque nenhuma impressão feita pela fala humana é tão profunda e indelével. Estas lições, quer ela saiba quer não, ela está gravando em tábuas de corações humanos — das quais a inscrição nunca pode ser totalmente obliterada. Impressão após impressão pode ser feita no mesmo coração — mas estas têm a vantagem de serem as primeiras e mais profundas; e quando todas as outras tiverem desaparecido, estas permanecerão.

Ao visitar uma família pertencente ao meu rebanho na Filadélfia, observei uma velha muito enérgica trazendo gravetos para dentro de casa em seu avental. Perguntei à senhora da casa quem era. “É minha mãe”, disse ela, “mas ela já não me reconhece.” Ao investigar, descobri que ela havia esquecido tudo, exceto o que havia ocorrido em sua juventude. E embora tivesse saído da Suíça quando era uma menina de quatorze anos, e não tivesse falado a língua alemã desde então, agora ela repete suas orações em alemão em voz alta todas as noites.

[O Desafio no Casamento e as Fraquezas na Educação]

Seria difícil traçar uma linha divisória definida entre uma boa mãe e uma boa esposa. O caráter desta última deve ter uma importância fundamental sobre o da primeira. Para uma mulher, desempenhar bem o seu papel quando unida a um marido digno e afetuoso é comparativamente fácil; mas quando uma mulher piedosa, de sentimentos refinados e suscetíveis, está ligada a um homem cujo verdadeiro caráter e temperamento foram destruídos por hábitos de embriaguez — quando ela é tratada com tirania brutal, e mesmo crueldade, para preservar a equanimidade e cumprir os deveres de uma esposa obediente e respeitosa, exige-se o exercício de muita abnegação. Tal situação é peculiarmente dolorosa e provadora para uma mãe piedosa — mas é uma condição à qual muitas excelentes mulheres, em nossos dias, têm sido submetidas. Porém, quanto maior for a provação, mais graça é necessária e mais brilhante é o caráter que se capacita com mansidão e força a suportar tal fardo.

Se tal calamidade recaísse subitamente sobre uma mulher de sentimentos refinados, seria avassalador; mas ela é gradualmente preparada para o pior, e aprende a disciplinar as suas paixões, de modo a não exibir qualquer temperamento inadequado à sua posição e à terna relação de esposa. Ela evita reprovações, e em sua boca não há repreensões ásperas. Alguma mudança na sua aparência e ocasionais crises de choro amargo, quando sozinha, não escaparão aos olhos ciumentos de um bêbado; e não é improvável que tais sintomas de profunda aflição como estes sirvam apenas para provocar a sua ira, e levá-lo a enfurecer-se mais violentamente, quando sob a influência de seus copos inebriantes. E o que ela pode dizer aos seus filhos à medida que se tornam capazes de observação? Ela nunca menciona o assunto a eles, se puder ser evitado; e, quando necessário, sem comentários que tenderiam a diminuir o respeito por um progenitor indigno. Ela esconde dos filhos as faltas e os maus-tratos do pai o máximo possível. E para todas as outras pessoas, por mais íntima que seja a amizade mútua, seus lábios estão selados. Esta é a dificuldade de suportar pacientemente este fardo pesado, que ele deve ser suportado sozinho, em silêncio, sem o alívio habitual derivado de desabafar as nossas tristezas no seio de um amigo fiel e solidário.

Não conheço nenhuma condição na vida humana, livre de culpa, que seja mais deplorável do que a de uma senhora educada, piedosa e de refinada sensibilidade, atada a um marido brutal que raramente está no seu perfeito juízo; ou que, embora por um tempo possa se conter, tem seus paroxismos da pior espécie de insanidade à qual nossa raça está sujeita.

Isto me leva a observar que a melhor visão que uma esposa pode ter de tal caso é considerá-lo uma verdadeira loucura e sentir e agir exatamente como se fosse o efeito de alguma causa física. Por mais difícil que a prática do dever possa ser em tais circunstâncias, observei não poucos exemplos de tal consumada prudência, firmeza cristã e mansa tolerância que provocam a minha admiração. Assim como o ouro é purificado pelo fogo da fornalha, também é provável que algumas mulheres, sob a pressão de tais aflições, se elevem a uma eminência de piedade que em outras circunstâncias jamais poderiam ter alcançado.

[Erros Disciplinares: Indulgência e Severidade]

Mas não devo me permitir falar num tom excessivamente laudatório das mães cristãs. Algumas têm grandes fraquezas, cujos efeitos sobre o caráter e os destinos de seus filhos são muito infelizes. Lembro-me de ter conhecido um fazendeiro da Virgínia do melhor e antigo estirpe. Era rico, hospitaleiro, de bom coração e, melhor que tudo, verdadeiramente piedoso. Quando ele ouvia o Evangelho, toda a sua alma parecia estar aberta à impressão da verdade; e ele era tão suscetível que, muitas vezes, enquanto o homem de Deus descrevia o amor de um Salvador, a grande lágrima, não menos viril, escorria pela sua face. Ele era um homem sem enganos; e você sempre podia saber onde encontrá-lo. Mas fiquei triste e surpreso ao descobrir que todos os seus filhos eram libertinos. Por beber, jogar e outros vícios, logo arruinaram sua reputação, esbanjaram suas propriedades, prejudicaram sua saúde e encurtaram suas vidas.

Buscando a causa desse grande afastamento do exemplo de um pai bom e afetuoso, tracei a origem até a indulgência imprudente de uma mãe carinhosa. Não que ela desejasse que os filhos se tornassem devassos; mas, quando eles agiam mal, ela escondia cuidadosamente a conduta deles do pai, era conivente com seus vícios e proporcionava-lhes facilidades para gratificar as suas inclinações corruptas, suprindo-os abundantemente com dinheiro. E com tal cuidado os vícios deles eram escondidos do pai incauto, que o primeiro conhecimento que ele obteve foi quando a ruína dos seus filhos estava consumada, e os seus hábitos tão enraizados, que todo o respeito pelo decoro foi posto de lado, e até mesmo o descontentamento de um pai podia ser desafiado.

Outra classe de mães, felizmente não tão numerosa, prejudica os seus filhos com uma disciplina demasiado rigorosa. Elas esperam, por meio de restrições e confinamentos externos, preservá-los da tentação. O princípio geral é bom — mas pode ser levado longe demais. Uma exposição gradual àquelas tentações que devem ser enfrentadas no mundo é mais segura do que um filho ser repentinamente submetido a toda a influência do mundo de uma só vez. Se as crianças não gostam da severidade da disciplina sob a qual são colocadas, serão engenhosas em encontrar oportunidades para evadir de um jugo que não gostam de carregar. E quando se libertam da restrição dos pais, estarão propensas a correr para maiores excessos do que as outras.

Enquanto a piedade sóbria e consistente nas mães tem um efeito poderoso e duradouro sobre os filhos, o fanatismo tem uma tendência contrária. Os filhos de pais que se entregam a expressões extravagantes de sentimento religioso, e cuja religião vem em paroxismos violentos, na maioria dos casos são desprovidos de reverência pelas coisas sagradas e frequentemente demonstram um desprezo pelos princípios morais.

[Princípios de Ensino e Formação de Caráter]

  • [A Balança da Moralidade]: É extremamente importante na educação e disciplina das crianças, não confundir as suas noções de certo e errado, tratando assuntos menores com a mesma seriedade e severidade que os grandes. As nossas instruções e a nossa conduta para com as crianças devem ser de modo a apresentar às suas mentes as virtudes e os vícios, de acordo com uma gradação justa. Se perseguirmos um pecadilho com tanta severidade quanto um grande crime, o perigo é que um grande crime seja cometido com tão pouco senso de sua maldade quanto uma falta de classe menor. Também é perigoso proclamar uma cruzada contra algum vício em particular e magnificar o seu mal além de qualquer comparação, enquanto outros vícios igualmente ou mais malignos passam despercebidos. Do mesmo modo, uma virtude ou dever pode ser defendida de forma tão contínua, e colocada em tal importância, que outras virtudes, igualmente importantes e valiosas, sejam deixadas escondidas num segundo plano. Como no caráter cristão, a simetria ou a devida proporção de cada graça é essencial para a perfeição; assim, no ensino da moralidade, deve-se ter estrita consideração à magnitude e à proporção de cada parte do sistema. Que todo VÍCIO seja tratado como vício — mas não deixe que todos os vícios sejam tratados como iguais. Que cada VIRTUDE ocupe o seu lugar adequado e preencha o seu devido espaço.
  • [A Regra da Autonomia e do Brincar]: É uma boa regra, mesmo no governo das crianças, não legislar demais. Não as aborreça com regras triviais e desnecessárias. Treine-as para governarem a si mesmas o máximo possível. A criança que só é obediente quando os olhos dos pais estão sobre ela não foi administrada adequadamente. Permita liberdade às crianças naquelas coisas que são inocentes e às quais elas estão inclinadas pelo instinto natural. É um plano pobre e de visão curta manter as crianças o dia inteiro debruçadas sobre os seus livros; elas aprendem muito mais do que é valioso brincando nos campos, do que podemos lhes ensinar por meio desse processo dentro de casa. É impressionante o quanto elas aprendem sem esforço, tanto de palavras quanto de coisas.
  • [Instrução Espiritual Indireta]: Podemos até ir longe demais, ao inculcar a piedade em suas mentes tenras incessantemente. As mães devem observar o momento favorável para incutir a instrução religiosa. Uma frase no momento favorável é melhor do que uma longa palestra num momento inoportuno. A santidade não pode se tornar agradável ao coração natural — mas a instrução piedosa pode se tornar interessante. Os métodos indiretos de atingir a consciência são muitas vezes melhores do que os mais diretos. Comentários ocasionais que não parecem intencionais para elas são frequentemente notados e lembrados; especialmente a conversa com visitantes piedosos em sua presença tem um efeito maravilhoso. Deixe que seus filhos se juntem cedo à companhia das pessoas, para que possam ouvir — isto é, se a conversa for edificante. Ao extrair comentários sobre certos assuntos de ministros e outras pessoas piedosas diante de seus filhos, é provável que você produza um efeito maior do que se as mesmas coisas fossem direcionadas a eles diretamente por seus pais.

[Vícios Comuns e Correções Necessárias]

A difamação familiar é um mal contra o qual as mães não podem se precaver de forma demasiadamente zelosa. Existem algumas famílias que são extremamente cautelosas em falar mal de seus vizinhos fora de suas casas; mas quando estão em casa, sentem-se privilegiadas e, na presença de seus filhos, se permitem grandes liberdades na depreciação do caráter daqueles com quem vivem, ostensivamente, em hábitos de convívio amigável. Este não é apenas um mau hábito, prontamente contraído pelas crianças — mas é o método mais eficaz de ensiná-las a bancar o hipócrita, ao assumir constantemente a aparência de amizade e usar a linguagem da bondade — quando um sentimento contrário é habitualmente cultivado. É impossível abrigar sentimentos de verdadeira amizade em direção àqueles que difamamos na prática todos os dias. Oh mães, protejam seus filhos contra esse vício comum, tão livremente indulgenciado e tão pouco censurado por muitos.

Semelhante a isso — porém menos maligno — é a prática de ridicularizar os defeitos e caricaturar as imperfeições ou falhas pessoais de nossos amigos. Em algumas famílias inteiras existe um talento para a imitação: elas conseguem imitar tão exatamente os tons, os gestos, as atitudes e os modos dos outros, que o exercício desta faculdade se torna uma fonte de grande diversão às custas de seus vizinhos; especialmente quando a qualidade ou a ação imitada é um pouco exagerada ou distorcida. Essa propensão deveria ser cuidadosa e resolutamente reprimida nos jovens. É muito provável que cause a separação ou alienação de afeto entre amigos: pois quem dentre nós está disposto a ser motivo de riso para o entretenimento dos outros?

Não há nada em que as mães devam insistir de forma mais uniforme e peremptória do que os filhos digam a verdade, toda a verdade e nada além da verdade. A mentira acima de todas as outras coisas pode ser dita como o vício das crianças. Desviam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras.” (Salmo 58:3). As crianças logo aprendem que os outros não podem olhar dentro de seus corações: elas muitas vezes dirão, portanto, o que sabem que não é verdade, confiando em que não serão descobertas. Mantenha um olhar vigilante sobre este assunto e não faça vista grossa a uma ofensa desse tipo. Muitos pais dignos, tenho observado, parecem saber pouco ou importar-se pouco com o hábito de contar mentirinhas em seus filhos. Manifeste, por todos os meios apropriados, o seu total ódio pela mentira, em todos os seus tipos e graus.

Eu também alertaria as mães contra a tola ambição de tentar fazer de seus filhos prodígios, e contra a vaidade de exagerar de tal forma em suas falas inteligentes e proezas para fazê-los parecer prodígios. Eu não seria tão rígido a ponto de proibir que as mães falem de seus próprios filhos queridos, pois da abundância do coração a boca falará — mas posso aconselhar-lhes que não tornem seus filhos o tema eterno de suas conversas, manhã, tarde e noite. Tenham a certeza de que outras pessoas não têm o mesmo interesse pelo assunto do que vocês. E embora eu possa elogiar aquelas mães que são diligentes na instrução de seus filhos, diria respeitosamente: sejam gratas por eles não serem idiotas, nem deformados, nem destituídos do senso comum da natureza humana; mas não fiquem ansiosas de que eles sejam considerados prodígios. Crianças podem ser tão bem treinadas a ponto de realizar maravilhas — mas de que bem isso pode advir? Acaso não vemos porcos sendo treinados do mesmo modo?

Exerça uma disciplina salutar para com seus filhos, até mesmo com a vara, quando for necessário — mas deixe que esse tipo de disciplina seja o último recurso, e usada com bastante raridade. É muito melhor do que isolá-los num quarto escuro, ou privá-los de alimento necessário — ou de qualquer coisa que deixe a criança muito tempo de mau humor. Mas evite cuidadosamente o castigo no calor da paixão, pois isso fará mais mal do que bem aos seus filhos.

[O Lar e a Oração]

Mantenha os seus filhos o máximo que puderem em sua própria casa. O sentimento familiar é um laço sagrado que deve ser preservado fresco e forte — o máximo de tempo possível. Muitas vezes as mães perdem toda a sua influência sobre os filhos pelo fato de eles serem enviados para escolas longe de casa. Portanto, façam com que o máximo da educação de seus filhos seja conduzida em casa, conforme praticável. Estejam certas de que nenhum lugar é tão favorável aos bons sentimentos e à moral dos jovens quanto o círculo familiar, a não ser que a família seja destituída de religião e virtudes; e para esses não estou escrevendo agora.

Internatos para meninas podem ser úteis — mas eu aconselharia você a manter as suas filhas em casa, sob o seu próprio olhar, e quando forem à escola de dia, que voltem para casa à noite. Pode ser que você encontre uma escola melhor ao enviá-las para fora — mas o sacrifício é grande demais e o risco de maus hábitos e de maus sentimentos não é pequeno. E quanto aos seus filhos homens, se tiverem de sair, coloque-os na casa de algum homem piedoso, e sob os cuidados maternais de uma mulher piedosa, onde poderão encontrar um substituto para a atenção dos pais. Enquanto estiverem ausentes, que eles retornem para casa com a maior frequência que puderem, a fim de que seja preservado aquilo que eu chamei de sentimento “doméstico”. Se for necessário pôr os seus filhos no aprendizado de algum ofício ou para serem caixeiros numa loja ou casa comercial, seja muito exigente quanto ao caráter e à fidelidade conscienciosa dos seus patrões. É lamentável constatar como os jovens, nessas circunstâncias, são negligenciados; e como ficam expostos a tentações das quais dificilmente poderão escapar sem culpa e contaminação.

Gostaria de recomendar seriamente às mães que mantenham correspondência, por meio de cartas, com seus filhos, ao serem afastados do teto doméstico: uma única palavra de admoestação e aviso da parte de uma mãe pode ser o meio de recuperar um filho amado da beira de um precipício. Mas, independentemente daquilo que negligenciarem, não deixem de seguir os seus filhos, quando ausentes, com as vossas orações diárias. Muitas vezes, isso é a única coisa que resta às mães. Os seus filhos ou foram tirados para longe delas, ou, se perto, perderam a sua influência sobre eles. Mas há Alguém, que está perto deles e que pode influenciá-los. Oh mães! clamem em favor da vossa querida prole diante do trono da graça; sofram dores de parto por eles uma segunda vez. Deus é clemente. Deus atentará ao clamor fervoroso e insistente das mães cristãs. Busquem amigas para se unirem a vocês em oração conjunta. Isto me leva a falar daquelas sociedades chamadas de “Associações Maternais”. Se conduzidas de forma prudente e humilde, elas foram calculadas para ser eminentemente úteis. Que seja evitada toda exibição e ostentação, e que as mães possam se reunir e orar pelos seus queridos filhos sempre que tiverem disposição para tal.

  1. Nota do Tradutor: Não concordamos com o exemplo do autor, que louva essas mulheres, pois não podemos elogiar aquilo que se afasta da lei de Deus, visto que Deus não ordenou as mulheres para posições ou funções públicas (Tito 2.5). Contudo, esse desvio pontual não inutiliza o restante do texto. ↩︎

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