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Reverendo David Steele, Sr.

Causas da Incredulidade — David Steele (1803 – 1887)

A causa original da incredulidade é, sem dúvida, inerente à constituição moral do homem — do homem caído pela quebra da aliança com Deus. A mente carnal é inimizade contra Deus, pois não se sujeita à lei de Deus, nem de fato pode fazê-lo. Mas há ocasiões, proporcionadas por santa e soberana providência, em que a inimizade contra Deus se manifesta por uma hostilidade especial à Sua vontade revelada. Entre tais ocasiões, pode-se notar a obstinação com que ministros e outros que professam o Evangelho resistem às evidências da Palavra de Deus contra a escravidão. O Deus justo, que ama a justiça, pronuncia juízo contra todos os opressores. A escravidão é uma forma complexa de opressão — que atinge o corpo, a alma, os bens, as relações e a reputação. A engenhosidade de teólogos, em concerto com políticos, tem sido exercida há um quarto de século para defender a legitimidade desse sistema desumano. Mediante a distorção das Escrituras, tentou-se provar que o Deus de justiça e misericórdia ordenou a relação entre senhor e escravo. A atual degradação do negro é apontada como legítima com base na marca posta em Caim — a despeito da intervenção do Dilúvio! —, na maldição sobre Canaã, na economia doméstica de Abraão e no código mosaico que regulamentava a relação entre senhor e servo; e até mesmo estudiosos das ciências naturais são invocados para afirmar, a partir de suas pesquisas profundas em fisiologia e, especialmente, em geologia, que o negro é naturalmente inferior ao homem branco — de fato, para provar que o homem de cor sequer é um homem! —, revelando assim uma convicção irresistível de que, se o negro for um homem, todos os argumentos anteriores que justificam sua escravização são falsos. Devemos nos surpreender, então, que a juventude ignorante e licenciosa, frequentadora de teatros e leitora de romances, se endureça no pecado e se confirme na incredulidade? Pois o Deus da Bíblia, tal como retratado pelos defensores da escravidão, não é o mesmo Deus revelado no livro da criação. Aqueles que assim manipulam a Palavra de Deus de forma enganosa, distorcendo as Escrituras para a sua própria destruição, sem dúvida “excluíram-se a si mesmos da igreja”.

Outra ocasião, da qual homens ímpios se aproveitam avidamente para se confirmarem na incredulidade, é a facilidade com que ministros do Evangelho mudam suas relações eclesiásticas. Infelizmente, o corpo visível de Cristo encontra-se despedaçado por múltiplas causas em nossos dias. Todas essas causas, sem dúvida, podem ser reduzidas a uma só: o afastar-se da fé, seja na teoria, na prática ou em ambas. E as mudanças de comunhão — tão rápidas e frequentes em nossos tempos, seja por parte de ministros ou de outros — raramente ocorrem no sentido de passar de uma comunhão mais corrupta para uma mais pura. De fato, “passar de uma comunhão mais pura para uma mais corrupta”, como bem se observou, “é a regra, e não a exceção, em nossos dias”. O presbiteriano passa para a comunhão da Igreja Metodista; o associado para a da Presbiteriana; o presbiteriano reformado, para a da Presbiteriana Unida — cada um “levando consigo todos os seus princípios” — e congratula-se por uma grande conquista em sua liberdade evangélica! “Falo do que sei e testifico o que vi.” Ora, a juventude de nossos dias, que foi em boa medida criada na disciplina e na admoestação do Senhor, não pode deixar de ver e ouvir fatos tão importantes. Ela, naturalmente, tirará conclusões a partir deles; e, infelizmente, tais conclusões são lamentáveis. Para aqueles que não estão arraigados e fundamentados na verdade, é perfeitamente natural julgar a religião pela conduta daqueles que a professam. Ao observar a instabilidade — especialmente a dos ministros — e não a imutabilidade da Palavra de Deus, tais pessoas concluem, primeiramente, que não há sinceridade nos professantes e, depois, que não há realidade alguma naquilo que professam! Tudo isso pode ser ilustrado por meio de um caso específico.

Durante o ‘grande despertamento’, como frequentemente era chamado, no inverno passado, certo doutor em teologia quis saber de Edwin Forrest, o ator trágico, se ele havia experimentado uma mudança operada pela graça, conforme se comentava. O ator, com seu espírito jocoso e astuto, respondeu essencialmente que não: disse que, como sempre, “amava seus amigos e odiava seus inimigos, pois não poderia ser hipócrita!” — insinuando, assim, que todos os cristãos professos são hipócritas e que, nisso, imitam o seu Mestre! (Absit blasphemia). Uma ou duas palavras sobre esse caso singular de incredulidade declarada. O astuto ator trágico não sabia que, no próprio ato de “censurar o Senhor”, ele estava confirmando a Palavra d’Ele; pois, se “todo homem anda numa vã aparência”, isso é verdade, de modo enfático, para o ator cênico; e é ainda mais enfaticamente verdadeiro, visto que o Senhor escolheu a própria palavra usada para designar um ator de teatro para retratar o caráter do pior dos homens1.

Que diremos daqueles ministros que passam de um “testemunho mais específico para um mais frouxo e genérico”? Ora, que eles mesmos se condenam, pelo menos no que diz respeito à sua inteligência ou sinceridade. Quando um ministro declara publicamente: “Eu nunca aprovei aquela parte do [Ato, Declaração e] Testemunho [de 1761] que condena erros e testemunha contra todos os que os sustentam”, constitui uma violação da lei da caridade inferir que tal pessoa é deficiente em inteligência, sinceridade ou fidelidade? Pode-se supor que ela possua uma compreensão bíblica da obrigação decorrente da ordenação e de outros votos? Pode-se dizer que ela “guardou o juramento de seu ofício”? Além disso, qual será o processo natural de raciocínio na mente daqueles de “capacidade mais robusta”, cuja memória fornecerá a matéria para tal reflexão — matéria apresentada em ministrações públicas ao longo dos últimos vinte ou trinta anos? Certamente, a conclusão de que o pregador não acreditava em sua própria doutrina! Mas a instabilidade do ministro em sua profissão [religiosa] não tenderia a levar a uma conclusão ainda mais ímpia — a de que sua doutrina era errônea? Ademais, se alguém se lembrar de que tais ministros instáveis ​​costumavam aproveitar a ocasião para enfatizar a declaração alarmante do Mestre: “Em verdade vos digo que um de vós me há de trair” — pressionando a consciência dos comungantes à Mesa do Senhor2 —, a facilidade com que podem abandonar os princípios distintivos da unidade pactuada e a prática peculiar da uniformidade pactuada tenderá a abalar a fé dos filhos de Deus; pois, com mentiras, eles entristecem o coração do justo, a quem o Senhor não entristeceu, e fortalecem as mãos do ímpio, para que não se desvie de seu mau caminho, prometendo-lhe vida. Assim, quando testemunhas pactuadas desertam das conquistas da Reforma e passam a se identificar com corpos eclesiásticos cujos membros fazem causa comum com partidos políticos infiéis e escravistas, a tendência direta de tais uniões e confederações é gerar e perpetuar a incredulidade. Se os fundamentos forem destruídos, o que poderá fazer o justo? Exatamente o que os justos sempre fizeram: fortalecer-se no Senhor, seu Deus. Pois que importa se alguns não creram? A incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma; antes, seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Se formos infiéis, Ele permanece fiel; Ele não pode negar-se a si mesmo. Ó SENHOR Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu, SENHOR? Ou quem é como a tua fidelidade, que está ao redor de ti? 

DAVID STEELE.

HILL PRAIRIE, Illinois, 15 de dezembro de 1858.

Notas:

  1. Os eruditos sabem que a palavra “hipócrita”, nas Escrituras, é tomada de empréstimo do teatro (dramatis personae), referindo-se aos atores no palco ↩︎
  2. Era motivo de séria reflexão para alguns, na época, se o tema era apropriado para as circunstâncias. ↩︎

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